Cilada no show

Pior do que homem solteiro que não quer se enrolar é homem comprometido que se comporta como solteiro. A espécie complica não só a própria vida, mas a vida das pessoas com quem ele se envolve, ou seja: cilada. Marcos era um bom representante dessa categoria. Namorando com Bárbara há alguns meses era mestre em inventar uma indisposição qualquer aos sábados a noite para cair na balada com os amigos. A namorada- tão doce que dá cárie só de olhar- acreditava em tudo, da dor de cabeça à suspeita de gripe suína. Bom para ele.

Num desses sábados em que o cupido resolve ir trabalhar bêbado, Marcos mais uma vez deu um belo perdido na namorada. Final de show, a maioria do público disponível já tinha se arranjado e, quem tinha ficado sozinho já deveria estar ciente que aquele não era o momento de encontrar alguém porque, né? Final de feira só tem xepa. Mas como na prática a teoria é outra os caminhos de Marcos e desta que vos escreve se cruzaram.

Que fique claro que eu não estava bêbada, mas minha hipermetropia ta aí pra me justificar. Estava com minhas amigas e, de repente, um grupo de rapazes veio até nós. Por essas infelicidades do destino estávamos em pares e eles foram logo se apresentando e partindo para o beijo. Depois daquele charme característico de quem não está bêbada o suficiente, acabamos nos beijando. Eu, solteira, sozinha e carente achei o máximo quando trocamos telefone e fui pra casa torcendo pra ele ser ao menos bonitinho já que no escuro e sem óculos não havia conseguido analisar o meliante.

Qual não foi minha surpresa quando, no dia seguinte meu celular tocou e o número dele apareceu no visor do meu aparelho. Deixei tocar algumas vezes- torcendo pra ele não desistir no meio da ligação- e finalmente atendi. Depois de um “Oi” que de espontâneo não tinha nem a intenção fiquei em choque ao ter como resposta um “Quem ta falando aí?” de voz feminina. Chamem de sexto sentido, intuição, mão divina, o que for, mas eu não respondi meu nome. Desliguei o celular mesmo sem saber que tinha culpa no cartório.

Curiosa com a ligação resolvi conversar com uma amiga que estava no show. Imaginem minha cara quando ela disse “Becky, você ficou com aquele menino que namora a

Bárbara, que mora ali na pracinha”. Não basta ficar com um cara que tem namorada. A namorada tem que ser praticamente sua vizinha. Palmas pra mim!

Nunca fui amiga da Bárbara, mas nos cumprimentamos na rua, nossas mães são colegas e é bem provável que temos alguma foto juntas nessas festas de escola já que fizemos o primário no mesmo colégio. Poxa, com tanta gente no show eu tinha que beijar justo o namorado dela?

O caso é que eu nunca soube se a pegação teria chances de evoluir para algo a mais já que o número continuou me ligando por algumas semanas e eu recusei todas as chamadas (não sei se era ele ou ela quem ligava). Ficar com o namorado da vizinha me gerou alguns inconvenientes do tipo me esconder atrás dos arbustos e bancos da pracinha quando, por coincidência, eles passavam por lá e manter o celular no silencioso sempre que saía de casa. Isso já faz alguns anos e os dois continuam juntos, de casamento marcado. A propósito: sempre a vejo sozinhas nos sábados à noite.

Becky Jones

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